Uma revolução quase silenciosa (exceto pelo ronronar e pelos miados de seus protagonistas) está transformando a vida nos lares paulistanos. Depois de décadas de reinado canino, os gatos começam a levar a melhor na briga com seu eterno algoz – sempre tido como o melhor amigo do homem. Os felinos ainda são minoria, mas sua crescente presença surpreende. Hoje, há 35,7 milhões de cães de estimação no Brasil, ante 19,8 milhões de gatos. A discrepância vem caindo, e São Paulo puxa o ritmo. Aqui, o número de felinos aumenta numa velocidade duas vezes maior que a de cães. Em dez anos, estima-se, haverá na cidade um gato para cada cachorro. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). Em 2023, os bichanos assumirão a dianteira na preferência nacional – e não há nada que os cães possam fazer para preservar o histórico posto de melhor amigo do paulistano.
Uma das explicações para essa revolução dos bichos de estimação é de natureza econômica. “O gato ganha espaço conforme a renda da cidade cresce”, diz Sérgio Zimerman, presidente do grupo Pet Center Marginal. Estatisticamente, quanto maior a riqueza, maiores as chances de a população preferir gatos a cães. Na Alemanha, os felinos domésticos formam uma comunidade 60% maior que a de cachorros. Nos Estados Unidos, eles são a maioria desde a década de 1990. Na Índia, em compensação, é o oposto: os cães são 850% mais numerosos que os gatos.
No fim do ano passado, quando o Pet Center Marginal registrou um aumento na procura por itens exclusivos para gatos, a rede tomou a decisão estratégica de inaugurar um espaço só para eles em sua matriz, na Marginal Tietê. Ainda que o mercado de produtos para cães fature muito mais, o voltado para gatos cresce a uma taxa ligeiramente mais alta nas lojas do grupo. Hoje, a maior parte dos produtos para gatos, como casas e brinquedinhos, precisa ser importada. Segundo Zimerman, quem tem gato é mais exigente, quer produtos feitos especialmente para felinos e prefere ir à loja e encontrar o que precisa com rapidez. Seus hábitos são diferentes daqueles cultivados por donos de cães, que gostam de levar o animal para passear na loja e mostrá-lo aos outros clientes.
Isso não quer dizer que os donos de gatos sejam mais comedidos na forma de expressar seu amor. Há casos em que essa relação determina até escolhas profissionais. O estilista Dudu Bertholini é um dos paulistanos que se encaixam nesse perfil. Ele se diz apaixonado por gatos e estampas felinas. Bertholini tem dois gatos. O mais velho, Socky, é um vira-lata de 8 anos, cinza, doado já adulto por um casal de amigos que se separou em Nova York. “Ele é tão independente que nossa relação é de colegas de quarto”, diz. Todas as noites, o gato desce – pelo elevador de carona com algum morador ou sozinho pelas escadas – e sai às ruas para passear. Quando Bertholini chama por seu nome ou algum vizinho o reconhece na região, o gato volta para casa. “Ele é mais popular que eu no bairro”, afirma. O segundo, Tygra, de 2 anos, é da raça bengal, de aparência selvagem. “Ele é um pouco mais dependente. O Socky é tipo um ídolo para ele”, diz. Os animais fazem companhia um ao outro quando o dono viaja, o que ocorre com frequência, em virtude de seu trabalho. A opção pelos gatos também se deve, em parte, a essa agenda de dias e até semanas longe de casa. Para ele, ter um cachorro é quase como ter um filho, dada a atenção que o animal demanda. “O gato é amoroso, mas há dias em que não está de bom humor. É uma relação mais adulta e verdadeira.”
A busca por animais de estimação mais independentes também está ligada às consequências do desenvolvimento econômico, como a urbanização e a verticalização das cidades. “Gatos não precisam de quintal, de banhos semanais, passeios no parque. Nem destroem a casa quando estão sozinhos”, afirma o zootecnista Alexandre Rossi, apresentador do programa Missão pet, do canal National Geographic. Se, no passado, os cães e os homens formaram uma parceria próspera, as exigências da vida urbana moderna parecem confirmar que o gato está mais adaptado para ser o parceiro ideal. “As pessoas estão mais sozinhas, se divorciam mais, têm menos filhos e estão mais idosas. É natural que busquem uma companhia mais livre como elas”, diz Alexandre Daniel, coordenador de medicina felina do Hospital Veterinário Santa Inês. Para ele, o gato virou o pet do futuro.
A independência felina vem do lado instintivo mais forte desses bichos. Domesticados a menos de 10 mil anos – os cães vivem como animais domésticos há cerca de 100 mil anos –, os gatos só foram trazidos para o convívio humano para combater os ratos que apareceram quando passamos a morar em aldeias fixas. Porém, ainda ficavam do lado de fora da casa, dedicados à caça. Na Idade Média, associados à bruxaria e ao paganismo, os gatos foram praticamente extintos. “Tivemos a maior epidemia de peste, causada pela pulga dos ratos”, afirma o veterinário Alexandre Daniel.
DE HEMINGWAY A RUBENS PAIVA
Na Revolução Francesa, os gatos voltaram a ganhar espaço. A liberdade dos felinos era bem-vista pelos artistas e revolucionários da época. No entanto, só há 50 anos é que os gatos foram tirados da função de caçadores e viraram animais de estimação para dentro de casa. Por isso, muito do comportamento independente felino ainda vem de seus ancestrais selvagens. “Ele naturalmente vai enterrar as fezes na caixa de areia porque um predador não pode deixar rastros”, diz o veterinário.
Por muito tempo, os gatos foram associados a escritores e artistas. Além de viverem na companhia felina, muitos até já dedicaram suas obras a eles, de Ernest Hemingway a Marcelo Rubens Paiva. Não que o gato esteja diretamente ligado à produção intelectual, mas está, sim, bem adaptado ao estilo de vida sem regras e solitário das mentes brilhantes. Uma pesquisa da Universidade de Bristol, no Reino Unido, mostra que os donos de gatos têm mais anos de estudo do que os donos de cães. A principal razão é que essas pessoas ficam muito fora de casa e têm pouco tempo para dedicar aos animais.
“Conviver com gatos é uma aula de elegância e sutileza, eles são limpos, independentes, misteriosos, silenciosos e loucos”, afirma a cantora Rita Lee, que vive com quatro deles numa casa na capital paulista. Ela diz que não confia em quem fala que gatos são traiçoeiros. Seu colo é disputado pelos vira-latas Sophia, de 16 anos; Magdalena, de 14; Neguinha, de 5; e Gambá, da raça sagrado da Birmânia, de 7 anos. Colecionadora de bichanos abandonados desde pequena, a cantora conta que seus gatos costumam trazer os colegas de rua para comer em casa. “Os cães tratam os donos como deuses, os gatos se sentem deuses.”
Ainda que se sintam deuses e que a sabedoria popular atribua aos gatos sete vidas, eles não são imortais, claro. Mas estão vivendo cada vez mais. Os cuidados que recebem dentro de casa fizeram sua expectativa de vida pular de seis para 15 anos em duas décadas. Há casos, ainda raros, de gatos que chegaram perto dos 30. Além de viver mais, eles estão mostrando novas caras. Existem apenas 46 raças de gatos reconhecidas no mundo inteiro. Só para comparação, são mais de 350 as variedades caninas.
Em São Paulo, raças até pouco tempo desconhecidas agora chegam com força. “Há uns cinco anos começamos a criar raças maiores, como o Maine coon, o ragdoll, o norueguês da floresta e o siberiano”, diz Gerson Alves, presidente do Clube Brasileiro do Gato (CBG) e único criador da raça burmês no Brasil. Antes disso, quase toda a criação de raças felinas era limitada aos persas. O gato que conhecemos como siamês não é reconhecido como raça internacionalmente.
A febre dos gatos gigantes ou diferentes é tão grande que entidades como o CBG certificam criadores mais sérios e recomendam que os interessados conheçam os gatis de onde pretendem comprar seus animais para garantir que eles sejam bem criados e saudáveis. Já existe inclusive a Associação da Raça Maine Coon no Brasil (Amacoon), que reúne um grupo de gatis de confiança. A Cobasi não vende gatos, mas trabalha com um sistema de adoção permanente nas lojas. No Pet Center Marginal existem poucos à venda. “Há muita demanda por gatos, mas há pouca oferta, porque os gatis são pequenos e concentram a comercialização”, diz o presidente do grupo, Sérgio Zimerman.
Sem tantos criadores, boa parte dos gatos domésticos vem da rua. Existem várias ONGs especializadas em resgatá-los. Curiosamente, muitas pessoas, mesmo dispostas a adotar um gato, rejeitam os animais mais velhos ou de pelagem muito comum, como o preto e branco, e os de pelagem completamente preta. A razão não é simplesmente estética. Pesa também a superstição. Amiga dos enjeitados, a dona de casa Claudia Schroerder Rinaldi e o marido, Fábio, já adotaram 14 animais. O casal gasta cerca de R$ 800 por mês com os gatos. Eles compram ração, filtro para a fonte de água, sacos de areia sanitária e pagam eventuais consultas veterinárias. “Cada cinco gatos custa o mesmo que um cachorro custaria para mim”, diz Claudia, que trabalhou como voluntária em ONGs de adoção de animais. O apartamento de 100 metros quadrados do casal na Zona Leste foi totalmente adaptado: as janelas foram teladas, a decoração não tem objetos pequenos que podem quebrar e os bichanos ganharam um quarto só para eles. “Os gatinhos são como nossos filhos, me sinto completa com eles”, diz.
A reportagem é da Época São Paulo.
Uma das explicações para essa revolução dos bichos de estimação é de natureza econômica. “O gato ganha espaço conforme a renda da cidade cresce”, diz Sérgio Zimerman, presidente do grupo Pet Center Marginal. Estatisticamente, quanto maior a riqueza, maiores as chances de a população preferir gatos a cães. Na Alemanha, os felinos domésticos formam uma comunidade 60% maior que a de cachorros. Nos Estados Unidos, eles são a maioria desde a década de 1990. Na Índia, em compensação, é o oposto: os cães são 850% mais numerosos que os gatos.
No fim do ano passado, quando o Pet Center Marginal registrou um aumento na procura por itens exclusivos para gatos, a rede tomou a decisão estratégica de inaugurar um espaço só para eles em sua matriz, na Marginal Tietê. Ainda que o mercado de produtos para cães fature muito mais, o voltado para gatos cresce a uma taxa ligeiramente mais alta nas lojas do grupo. Hoje, a maior parte dos produtos para gatos, como casas e brinquedinhos, precisa ser importada. Segundo Zimerman, quem tem gato é mais exigente, quer produtos feitos especialmente para felinos e prefere ir à loja e encontrar o que precisa com rapidez. Seus hábitos são diferentes daqueles cultivados por donos de cães, que gostam de levar o animal para passear na loja e mostrá-lo aos outros clientes.
Isso não quer dizer que os donos de gatos sejam mais comedidos na forma de expressar seu amor. Há casos em que essa relação determina até escolhas profissionais. O estilista Dudu Bertholini é um dos paulistanos que se encaixam nesse perfil. Ele se diz apaixonado por gatos e estampas felinas. Bertholini tem dois gatos. O mais velho, Socky, é um vira-lata de 8 anos, cinza, doado já adulto por um casal de amigos que se separou em Nova York. “Ele é tão independente que nossa relação é de colegas de quarto”, diz. Todas as noites, o gato desce – pelo elevador de carona com algum morador ou sozinho pelas escadas – e sai às ruas para passear. Quando Bertholini chama por seu nome ou algum vizinho o reconhece na região, o gato volta para casa. “Ele é mais popular que eu no bairro”, afirma. O segundo, Tygra, de 2 anos, é da raça bengal, de aparência selvagem. “Ele é um pouco mais dependente. O Socky é tipo um ídolo para ele”, diz. Os animais fazem companhia um ao outro quando o dono viaja, o que ocorre com frequência, em virtude de seu trabalho. A opção pelos gatos também se deve, em parte, a essa agenda de dias e até semanas longe de casa. Para ele, ter um cachorro é quase como ter um filho, dada a atenção que o animal demanda. “O gato é amoroso, mas há dias em que não está de bom humor. É uma relação mais adulta e verdadeira.”
A busca por animais de estimação mais independentes também está ligada às consequências do desenvolvimento econômico, como a urbanização e a verticalização das cidades. “Gatos não precisam de quintal, de banhos semanais, passeios no parque. Nem destroem a casa quando estão sozinhos”, afirma o zootecnista Alexandre Rossi, apresentador do programa Missão pet, do canal National Geographic. Se, no passado, os cães e os homens formaram uma parceria próspera, as exigências da vida urbana moderna parecem confirmar que o gato está mais adaptado para ser o parceiro ideal. “As pessoas estão mais sozinhas, se divorciam mais, têm menos filhos e estão mais idosas. É natural que busquem uma companhia mais livre como elas”, diz Alexandre Daniel, coordenador de medicina felina do Hospital Veterinário Santa Inês. Para ele, o gato virou o pet do futuro.
A independência felina vem do lado instintivo mais forte desses bichos. Domesticados a menos de 10 mil anos – os cães vivem como animais domésticos há cerca de 100 mil anos –, os gatos só foram trazidos para o convívio humano para combater os ratos que apareceram quando passamos a morar em aldeias fixas. Porém, ainda ficavam do lado de fora da casa, dedicados à caça. Na Idade Média, associados à bruxaria e ao paganismo, os gatos foram praticamente extintos. “Tivemos a maior epidemia de peste, causada pela pulga dos ratos”, afirma o veterinário Alexandre Daniel.
DE HEMINGWAY A RUBENS PAIVA
Na Revolução Francesa, os gatos voltaram a ganhar espaço. A liberdade dos felinos era bem-vista pelos artistas e revolucionários da época. No entanto, só há 50 anos é que os gatos foram tirados da função de caçadores e viraram animais de estimação para dentro de casa. Por isso, muito do comportamento independente felino ainda vem de seus ancestrais selvagens. “Ele naturalmente vai enterrar as fezes na caixa de areia porque um predador não pode deixar rastros”, diz o veterinário.
Por muito tempo, os gatos foram associados a escritores e artistas. Além de viverem na companhia felina, muitos até já dedicaram suas obras a eles, de Ernest Hemingway a Marcelo Rubens Paiva. Não que o gato esteja diretamente ligado à produção intelectual, mas está, sim, bem adaptado ao estilo de vida sem regras e solitário das mentes brilhantes. Uma pesquisa da Universidade de Bristol, no Reino Unido, mostra que os donos de gatos têm mais anos de estudo do que os donos de cães. A principal razão é que essas pessoas ficam muito fora de casa e têm pouco tempo para dedicar aos animais.
“Conviver com gatos é uma aula de elegância e sutileza, eles são limpos, independentes, misteriosos, silenciosos e loucos”, afirma a cantora Rita Lee, que vive com quatro deles numa casa na capital paulista. Ela diz que não confia em quem fala que gatos são traiçoeiros. Seu colo é disputado pelos vira-latas Sophia, de 16 anos; Magdalena, de 14; Neguinha, de 5; e Gambá, da raça sagrado da Birmânia, de 7 anos. Colecionadora de bichanos abandonados desde pequena, a cantora conta que seus gatos costumam trazer os colegas de rua para comer em casa. “Os cães tratam os donos como deuses, os gatos se sentem deuses.”
Ainda que se sintam deuses e que a sabedoria popular atribua aos gatos sete vidas, eles não são imortais, claro. Mas estão vivendo cada vez mais. Os cuidados que recebem dentro de casa fizeram sua expectativa de vida pular de seis para 15 anos em duas décadas. Há casos, ainda raros, de gatos que chegaram perto dos 30. Além de viver mais, eles estão mostrando novas caras. Existem apenas 46 raças de gatos reconhecidas no mundo inteiro. Só para comparação, são mais de 350 as variedades caninas.
Em São Paulo, raças até pouco tempo desconhecidas agora chegam com força. “Há uns cinco anos começamos a criar raças maiores, como o Maine coon, o ragdoll, o norueguês da floresta e o siberiano”, diz Gerson Alves, presidente do Clube Brasileiro do Gato (CBG) e único criador da raça burmês no Brasil. Antes disso, quase toda a criação de raças felinas era limitada aos persas. O gato que conhecemos como siamês não é reconhecido como raça internacionalmente.
A febre dos gatos gigantes ou diferentes é tão grande que entidades como o CBG certificam criadores mais sérios e recomendam que os interessados conheçam os gatis de onde pretendem comprar seus animais para garantir que eles sejam bem criados e saudáveis. Já existe inclusive a Associação da Raça Maine Coon no Brasil (Amacoon), que reúne um grupo de gatis de confiança. A Cobasi não vende gatos, mas trabalha com um sistema de adoção permanente nas lojas. No Pet Center Marginal existem poucos à venda. “Há muita demanda por gatos, mas há pouca oferta, porque os gatis são pequenos e concentram a comercialização”, diz o presidente do grupo, Sérgio Zimerman.
Sem tantos criadores, boa parte dos gatos domésticos vem da rua. Existem várias ONGs especializadas em resgatá-los. Curiosamente, muitas pessoas, mesmo dispostas a adotar um gato, rejeitam os animais mais velhos ou de pelagem muito comum, como o preto e branco, e os de pelagem completamente preta. A razão não é simplesmente estética. Pesa também a superstição. Amiga dos enjeitados, a dona de casa Claudia Schroerder Rinaldi e o marido, Fábio, já adotaram 14 animais. O casal gasta cerca de R$ 800 por mês com os gatos. Eles compram ração, filtro para a fonte de água, sacos de areia sanitária e pagam eventuais consultas veterinárias. “Cada cinco gatos custa o mesmo que um cachorro custaria para mim”, diz Claudia, que trabalhou como voluntária em ONGs de adoção de animais. O apartamento de 100 metros quadrados do casal na Zona Leste foi totalmente adaptado: as janelas foram teladas, a decoração não tem objetos pequenos que podem quebrar e os bichanos ganharam um quarto só para eles. “Os gatinhos são como nossos filhos, me sinto completa com eles”, diz.
A reportagem é da Época São Paulo.
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