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Evento debateu a presença de cães em praias em Florianópolis

Evento debateu a presença de cães em praias em Florianópolis

 

Médicos veterinários participaram do evento neste dia 13 de maio promovido pela Somevesc.

 

Médicos veterinários debateram em Florianópolis, nesta segunda-feira (13) a presença de cães em praias. O evento foi promovido pela Sociedade Catarinense de Medicina Veterinária de Santa Catarina (Somevesc) e reuniu profissionais e estudantes no Plenarinho - 1º andar da Reitoria da UDESC.

O mediador do encontro assessor jurídico da Sociedade Catarinense de Medicina Veterinária (Somevesc), Dr. Nefhar Borck, destacou que o debate também passa pelo direito coletivo, onde a sociedade vive em harmonia. “Há quem concorde e quem discorde que uma limitação na praia é suficiente. E que as vacinas e desvermifugações em dia também podem fazer com que os animais possam interagir nesses ambientes”.

O presidente da Somevesc, Adil Knackfuss Vaz, pontuou que o debate levantou mais do que os riscos de doenças, riscos com mordeduras ou a liberdade do animal. “O encontro serviu para que estudantes e profissionais da área pudessem analisar a legislação, fiscalização e trocar ideias para que os tutores possam desfrutas da companhia dos animais em espaços destinados, além de precauções necessárias para proteger a saúde dos animais e dos humanos”.

Ricardo de Pauli, da Medicina Veterinária Comportamental (COMPORVET) apontou dados e pesquisam que mostram que a socialização e ter espaços destinados para isso são a melhor opção para o litoral e para todo o estado. De acordo com ele, dados de 2013 publicados em 2015, demonstram os números de cães existente em famílias brasileiras. São 52 milhões de cães, frente a 45 milhões crianças e 21 milhões de gatos.

Os dados apontam ainda que 44% dos domicílios no Brasil tem pelo menos um cão e 17% tem gato. Na região Sul, o dado aumenta para 58% de domicílios que possuem ao menos um cão e 19% com pelo menos um gato. Em Santa Catarina, 55% dos domicílios tem ao menos um cão e 16% um gato.

“O cão antigamente caçava e vivia livre, hoje vive em casas ou apartamentos e ganha ração, com estímulos mais baixos físicos e mentais. Aí surgem os problemas de comportamento. No Brasil a agressividade está em 33% dos abandonos”, salientando que dados do Ministério da Saúde, de 2005 apontam para 16 óbitos por mordedura. “A prevenção é a forma mais eficaz de controlar todos os problemas, fazendo a socialização, uma forma mais barata e eficaz”.

De acordo com Ricardo a socialização pode ser feita com 12 a 19 semanas do nascimento do cão e também de forma sadia, com animais vacinados e desverminados.

O médico veterinário apontou ainda a Legislação Municipal de Florianópolis. A lei complementar 094/2001 proíbe no art. 7º a permanência de animais em locais públicos; no art. 8ª a permanência em praias; no art. 10º o Município de não responde por danos ou morte de animais e no art. 11º fala que os animais apreendidos terão as seguintes destinações: resgate, leilão, doação ou abate. “É uma legislação bem rigorosa quando se fala em abate. Em algumas praias de Florianópolis existem placas, independente disso e da lei o cão de rua vai ter acesso. Normalmente esses animais não são vacinados e desverminados, e o município não tem como fiscalizar e cumprir a lei”. “Como também não existem locais para os animais socializarem. Como é o exemplo da Lagoa Rodrigo de Freitas no RJ, onde um adestrador adotou um espaço chamado de “parcão”, fechado e com regras, onde os donos podem levar os cães”

Ricardo ainda destacou que existe a questão do bem estar do animal e a posse responsável, e outro exemplo é da Alemanha, que obriga o tutor a pagar imposto sobre a posse de cães no valor de cerca de €700/ano e uma habilitação para condutores, além de seguro para cães no valor de aproximadamente €80 euros/ano. Passando ainda por um treinamento básico e atestado de socialização. “Os cachorros independente de lei querem interagir, e os humanos também vão levar seus animais para socializar. Se o tutor brasileiro está preparado para seguir o exemplo da Alemanha não se sabe”.

O médico veterinário mencionou ainda algumas doenças, como micoses de pele, outros fungos e alguns parasitas que podem ser transmitidos pelos animais. Um estudo nas praias de Laguna demnstrou que 64% das amostras das praias continham parasitas. “Não existem dados que mostrem que apenas os cães transmitam doenças e parasitas encontradas nas amostras, e eles estão sendo proibidos. Poderiam ser criados locais com dias e horários para a presença, com regras da região”.

Luiz Afonso Erthal, da Associação Nacional dos Clínicos Veterinários de Pequenos Animais (Anclivepa/SC), destacou a importância da medicina veterinária na saúde humana e animal e se mostrou contra a permanência de animais em praias, frequentadas por crianças e população em geral. “Será que os animais se não fossem levados à praia, eles iriam sozinhos, enfrentando areia, vento, água salgada e sol? Sem um local para se refrescar. Não é o habitat natural de cães, mas eles vem a areia como a área ideal para defecar e urinar”, destacou. “Estamos humanizando os animais e com isso, há a mudança comportamental em ambos, embora alguns cães sejam de companhia para pessoas de deficiência. Mas será que eles iriam voluntariamente para a praia?”

Luiz adverte que os animais podem comer algo que possa intoxicá-los, e ainda existe a socialização e possíveis agressões. “A lei é para todos, e sabemos que nem todo cuidador vai manter as vacinas em dia e socializar seus animais. Ainda os riscos de contaminação de humanos, da areia, da água e dos animais”. Outra questão são as altas temperaturas e o sol, a desidratação, pode ocorrer queimaduras nas patas e na pele e desequilíbrio no sistema termorregulador dos animais, com risco de câncer de pele, como explica o veterinário, que estuda oncologia veterinária.  “A presença de animais nas praias pode existir, quando houver uma reeducação para todos”.

O médico veterinário concordou que deve existir socialização. “Existem benefícios da companhia com os animais, eles participam das vidas dos tutores – que são os responsáveis. A maioria das pessoas não tem conhecimento da biologia e da saúde dos animais e, por isso a importância dos médicos veterinários e alertar o que pode e não fazer, sem deixar a afetividade de lado”.

Luiz também demonstrou dados de um estudo de uma zootecnista em 2018, das 104 amostras coletadas em Armação do Pântano do Sul, Morros das Pedras e Campeche, mostraram que 43 amostras estavam contaminadas com 1 ou mais parasitas.  O Campeche aparecia com mais contaminações, parasitas e bactérias.

O veterinário entende que antes de liberar o acesso de animais mesmo que em área restrita, a lei 94/2001 seja regulamentada e fiscalizada. Que haja controle populacional dos animais, investimentos em programas de educação para posse responsável, além do desenvolvimento de políticas públicas de atenção sanitária e ambiental das praias. “Mesmo com essas questões resolvidas e população consciente, a praia não é o habitat natural e sob ponto de vista técnica técnico, eventuais benéficos não compensam os riscos aos humanos e animais, que não eliminadas por força da lei”.

Por fim, o debate foi estendido a questionamentos sobre legislação, riscos e saúde.

Saiba mais - Os animais estão proibidos de frequentar as praias de Florianópolis em função da lei complementar municipal 94/2001, o debate foi aberto devido a entrada do projeto de lei 1.705/2018, que prevê a circulação de cães nas faixas restritas e demarcadas de praias da Ilha de Santa Catarina e do Continente, escolhidas pelo poder público municipal, e que está em discussão na Câmara de Vereadores.

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