14 de maio de 2013

Alimentos. Uma questão de sobrevivência!, por Air Fagundes

Aconteceu de 23 a 26 de abril de 2013, em Gramado/RS, o XII Congresso Brasileiro de Higienistas de Alimentos, em parceria, o VI Congresso Latino-Americano, o II Encontro Nacional de Vigilância das Zoonoses e o IV Encontro do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal. Considerados os maiores eventos multiprofissionais no Brasil que tratam da segurança alimentar e sustentabilidade e, por conseguinte, de saúde (animal, humana e ambiental). Nos quais circularam mais de 1.800 pessoas, entre congressistas e convidados.

Por que os alimentos são vistos como uma questão de sobrevivência e, por extensão, uma questão de segurança nacional?
1º – Pelo que ficou registrado pelo historiador Tucídedes (464-401 a.C.), ao descrever as guerras enfrentadas pelo Império de Atenas. Onde mostrou que em determinado momento da história dessa fantástica organização do mundo grego, potência marítima, para a época, foi seriamente abalada pela importação de grãos do Egito e da Líbia. Com os grãos, base alimentar dos atenienses, veio uma praga que causou grande devastação humana, agravada pela política de preservação de vidas que levou à aglomeração de pessoas. A doença de origem alimentar logo se propagou, com muita rapidez, para as tropas distantes da cidade-estado. Ao ponto de se dizer que: Atenas perdia pela doença os homens que não perdera em campo de batalha?. A verdade é que a queda de Atenas (404 a.C.) para Esparta e seus aliados, em parte, credita-se à baixa disponibilidade e qualidade dos alimentos. Até Péricles, considerado o grande estrategista para garantia do abastecimento de alimentos aos atenienses, foi vítima da praga. Curiosamente Atenas naquele momento representava o embrião da democracia e defrontava-se com Esparta, aristocracia agrícola e potência militar ortodoxa. Para esse império derrubado pela fome e pela doença, os alimentos representaram uma questão de segurança nacional. (Em: História das Guerras, organizado por Demétrio Magnoli/2006).

2º – É importante ressaltar que depois de 24 séculos dos primeiros registros de problemas causados por alimentos que contribuíram para a queda de uma potência mundial, o XII Congresso Brasileiro de Higienistas de Alimentos e eventos agregados vieram para Gramado, Rio Grande do Sul, comprometidos com a necessidade de debater segurança alimentar. Preocupação que vem ao encontro do que mais se ouve em promoções dessa natureza: Que a saúde entra pela boca. Por está razão, a Comissão Organizadora optou pelo mote: Os alimentos sob a ótica da sustentabilidade: entre a consciência e a prática. Por consequência, colocou na mesa dos debates uma farta, rica e diversificada programação, concentrada em três dias (sete horas diárias), composta de assuntos de relevante interesse para todos aqueles que direta ou indiretamente labutam na produção de alimentos ou zelam pela qualidade dos mesmos, sempre visando garantir que cheguem confiáveis as mãos dos consumidores, indiferentemente de serem destinados à alimentação humana ou animal. Antes de tudo, que sejam produzidos com segurança, preservando o meio ambiente e atendendo exigências voltadas a garantir o bem-estar animal. Para atender essa arrojada temática, a Comissão Organizadora convidou palestrantes de renome no meio científico. Ainda, recebeu em torno de 1.000 trabalhos de pesquisas. Oportunidade para também lembrar, mais uma vez, que esses trabalhos precisam ser transferidos aos consumidores finais desses saberes, através dos profissionais de diferentes áreas do conhecimento. Por falar em transferência e aplicação dos conhecimentos gerados em centros de pesquisas, depois de 200 anos de criação do ensino superior no Brasil, finalmente, parece, que o Poder Central brasileiro acordou ao pretender criar um Centro de Extensão para garantir que parte desses avanços científicos e tecnológicos chegue aos produtores de alimentos, com o objetivo de obter altos níveis de produção, produtividade e condição higiênico-sanitária, com sustentabilidade, garantindo assim qualidade de vida.

Com a finalidade de deixar registrada para gerações futuras a importância desses eventos e mostrar a necessidade da participação mais expressiva de profissionais e estudantes em eventos desse porte, especialmente da Medicina Veterinária, convém pinçar, ao acaso, alguns temas para exemplificar o que foi abordado, como segue:

– Um dos debates tratou do tema fraudes e desvios tecnológicos em alimentos que, por si só, permitiria um evento de muitas horas. Problema cada vez mais frequente em produtos de origem animal, resultante da ganância por mais lucros (adicionando água ou gelo, por exemplo). Recentemente a fraude em leite transportado, com adição de água e ureia. Produto fraudado, além de lesar o bolso do consumidor por adquirir produto de qualidade nutritiva inferior, pode ser nocivo a sua saúde, sem a desejada garantia higiênico-sanitária e físico-química. Infelizmente, em alguns casos, o idealizador de alimentos adulterados procura fazer o consumidor acreditar em inovações tecnológicas para poder vender mais sem reduzir preço, ganhar mais.

– Outro debate, de particular interesse para médicos-veterinários, foi a importância de novos padrões de identidade e qualidade para a segurança alimentar. Neste painel ficou demonstrado que a flora microbiana que compromete a segurança de produtos de origem animal, especialmente tratando-se de derivados do leite, não para de crescer em razão de vários fatores, entre eles, pelo uso de águas poluídas, pela falta de higiene na ordenha, pela resistência de microrganismos a produtos de uso veterinário, etc. Por outro lado, esse crescimento microbiano, aparente ou não, pode estar ligado ao aprimoramento dos métodos de detecção de contaminantes biológicos que andam também em velocidade crescente. O que não deixa de preocupar, considerando que cada vez mais será cobrada qualificação profissional para enfrentar o problema. Para o profissional da Medicina Veterinária, a cada congresso, fica demonstrado que é indispensável sua atuação ao longo de toda a cadeia de produção, seja de carne ou leite. Ou seja, da fonte, no caso do leite, da glândula mamária da vaca, na granja, à mesa do consumidor. Merecendo destaque, quando se tratar de possível presença de zoonoses transmitidas por alimentos. Sem esquecer, que alguns agentes de contaminação passaram a migrar de matéria prima, requerendo novas pesquisas. Embora isso possa ter sempre acontecido, mas agora, certamente, com mais intensidade. Nesta mesma mesa redonda foi discutida a preocupação com as boas práticas em relação ao pescado. Segundo recomendação da especialista em aquicultura, não bastando apenas o tratamento térmico para controlar a presença de microrganismos que comprometem a saúde do consumidor.

No II Encontro Nacional de Vigilância das Zoonoses, entre os temas importantes debatidos, um foi relacionado ao diagnóstico da brucelose humana. Sem dúvida uma zoonose que diz respeito muito de perto ao exercício profissional do médico-veterinário pelo estreito convívio durante seu labor com animais portadores dessa zoonose, tanto no seu dia a dia na clínica, como pelo manuseio de órgãos em matadouros sem a devida prevenção. A brucelose para a OMS é a mais importante zoonose da América Latina. Isto foi afirmado há muitos anos num evento no RJ reunindo médicos-veterinários e médicos humanos para discutir a importâncias das zoonoses em saúde pública. Na mulher, sempre é bom lembrar, com a crescente participação da médica-veterinária no mercado de trabalho, que além dos sintomas incômodos que a doença causa, leva à infertilidade e aborto. A palestrante destacou, ao concluir sua exposição, a grande preocupação que tem a vigilância do estado do Paraná com a brucelose humana, bem como, o adiantado estágio da Argentina em termos de diagnóstico.

Outro debate que mereceu especial atenção, sem tirar o mérito dos demais, foi sobre os grandes eventos internacionais: como nossos sistemas de vigilância estão preparados para esses desafios que se aproximam. Entre eles: Eco-RJ, Rock in Rio, Jogos Pan Americanos, Estatuto do Torcedor, Conferência das Nações Unidas (Rio + 20), Copa das Confederações (2013), Jornada Mundial da Juventude (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016). Para os quais a presença do médico-veterinário sanitarista é de fundamental importância para a garantia da segurança dos alimentos oferecidos a milhares de participantes.

Outro debate que não poderia faltar, tratou da contaminação ambiental e de alimentos por contaminantes químicos e biológicos, com especial ênfase ao perigo de fungos em cereais e oleaginosas quando ingeridos em pequenas quantidades por pessoas e animais. Destacando que poucos grãos no Brasil escapam da presença de micotoxinas, o que deve preocupar qualquer profissional consciente do seu papel a serviço da sociedade. Repetindo sempre que são cancerígenas, o que aumenta a preocupação em relação às crianças como consumidoras de merendas muitas vezes de procedência duvidosa.

Outro tema que merece futuros debates, em especial pelo incentivo a piscicultura na pequena e média propriedade, é a presença de histamina em pescado e em outros alimentos. Sabe-se que pode causar choque anafilático. Em peixe, o perigo se agrava quando acondicionado em temperatura acima de 4ºC. Mais uma vez, foram lembradas as boas práticas. Recebendo destaque a preocupação do consumo de atum com massa de tomate. É sempre interessante também lembrar que a histamina é liberada em outros produtos de origem animal e vegetal como: linguiça, salame, vinho, cerveja, etc. E que não é eliminada pelo cozimento, como muitos acreditam.

Finalmente, para arrematar esta exposição de motivos, debateu-se o tema surtos alimentares no Brasil e no mundo. Preocupação que vem rondando a humanidade há mais de 24 séculos. Problemas alimentares que acontecem em pleno Século XXI com muita frequência na totalidade das residências brasileiras em maiores ou menores proporções. Indo de uma simples intoxicação, com leve indisposição após o consumo de alimentos, até infecções alimentares graves que podem levar à morte.

Por fim, na qualidade de congressista/coordenador de painéis e por entender que cabe ao término de qualquer evento dessas proporções fazer recomendações extraoficiais, tomo a liberdade de recomendar:
1º – Que o tema segurança alimentar, pela importância que representa para consumidores de qualquer idade, seja incluído em projetos didático-pedagógicos de todas as escolas do ensino fundamental e do ensino médio brasileiro e, se possível, com a colaboração de profissionais que dominam o assunto.
2º – Que os professores dessas escolas sejam convidados e incentivados a participar de eventos que tratem fundamentalmente da qualidade dos alimentos, a exemplo do que acontece no Congresso do Colégio Brasileiro de Médicos-Veterinários Higienistas de Alimentos.
3º – Que seja estudada uma estratégia para levar a produção científica relacionada à segurança alimentar, gerada nos centros de pesquisas e apresentada em congressos, às escolas do ensino fundamental e médio, incluída às feiras de ciências.
4º – Que os dirigentes (gestores) máximos de órgãos públicos de alguma forma relacionados à segurança alimentar incentivem e facilitem a participação dos seus profissionais interessados em debater esse assunto. Profissionais que especialmente atuem em secretarias, diretorias, divisões, departamentos, etc., dos três viveis da administração pública, como responsáveis pela produção, produtividade e sanidade dos alimentos de origem animal e vegetal, por significar um compromisso com a cidadania.

Com certeza todos sairiam ganhando, especialmente o consumidor final que, afinal de contas, somos todos nós.

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