1 de fevereiro de 2013

Tudo, menos tragédia, por Paulo Roberto Costa Leite Garcia

Chorou-se os mortos. Mais de duas centenas. Tão jovens todos. Então, chorou-se. Sinos dobraram em finados e até uma gaita gemeu uma milonga triste. Ouviu-se um solo de clarineta e gemidos de violinos a convocar silêncio e lágrimas. Abraços longos, fortes, inócua tentativa de consolo, envolveram pais, irmãos, amigos. Acenderam-se velas, depositaram-se flores. Faixas, cartazes e fotografias desfilaram pelas ruas, avenidas atestando o luto, a perplexidade, a indignação. Tudo isso foi e é legítimo. O que não é legítimo é permitir-se que colem o rótulo de tragédia ao infausto acontecimento de Santa Maria.

Tragédia é o imprevisível. O inevitável. O teatro de horror em que se transformou a boate Kiss, na madrugada de 27 de janeiro, não possuía este ingrediente fundamental às tragédias verdadeiramente ditas. Tudo ali era previsível. Tudo ali conspirava para o tenebroso desfecho. Tudo ali atendia à lei de Murphy. Para os que a desconhecem, ou não lembram, aqui vai ela, curta, simples, direta. Só não a entende quem não quer. Diz assim: se alguma coisa pode dar errado, dará!

Deu. Errado. Erradíssimo.

Os fandangueiros, querendo extasiar a plateia, despejaram faíscas. Acabaram ateando fogo. Já os extintores, cúmulo da ineficácia, negaram fogo na hora agá. Então, o caos se instalou. E quando o caos se instala, o pânico toma conta das criaturas. Elas disparam. Desembestam. Fugir, fugir é tudo o que querem. Para onde? Para a luz, que deve haver, no fim do túnel. Para os moços na boate Kiss, no fim do corredor. Foram para lá, tateando em meio à cortina de fumaça. Encontraram a câmara mortuária.

Ok, nós já sabíamos: “O Haiti é aqui.” Agora, sabemos que o Holocausto também. A qualquer hora do dia ou da noite. A qualquer circunstância, topa-se com ele. Até na balada do fim de semana. Nas ruas, vive-se de sobressalto. De assalto em assalto, quem morre é o cidadão. Sobrevive o bandido e o crime. Nas escolas, de qualquer grau, podem, com sorte, até sobrar computadores, mas falta o equipamento primordial. Professores que, bem preparados e remunerados dignamente, sejam capazes de formar as novas gerações, desde a tenra idade. Mestres de verdade, que possam transmitir, carinhosamente, às crianças e aos jovens brasileiros, mais que informação, que isso qualquer Google, sabe-se, é capaz, mas valores. Exatamente. Valores. Coisas tão antigas, mas ainda necessárias. Ética. Princípios. Um deles, o de que não se faz aos outros, aquilo que não gostaríamos que nos fizessem. Mas que! Com as escolas como andam, pouco se ensina. Ou ensina-se a fraude. Um jeito de entrar pela porta dos fundos e sair com um diploma fajuto na mão. Assim, mata-se um pouco, a cada dia, o futuro da nação. Nos hospitais, o remédio, que devia combater o mal, apressa o fim. Para completar, o médico plantonista, inconformado com as más condições de trabalho, decide protestar, justamente faltando ao plantão. Com isso, sacrifica a criança e a tenra ilusão de que Medicina é sacerdócio, vocação.

E o cenário desse teatro do absurdo é aterrorizante. Encostas de morros derretem com as chuvas, soterrando lares e vidas da gente humilde deste país tropical, bonito por natureza. Nas cidades alagadas, mal cuidadas, as pestes se propagam. A corrupção também. Aliás, os corruptos, são um capítulo à parte. A fim de não trair o “modus operandi” comum aos criminosos, costumam retornar à cena. Chegam, empunhando, feito um escudo, a Constituição. Assumem pose de paladinos do Direito, da Ordem Jurídica. Da Democracia. Devem entender bem de direito, uma vez que, para salvar os seus, percorrem, determinados, palmo a palmo, os intricados caminhos da legislação. Então, postam-se, outra vez, despudorados, na Câmara, no Senado da República ou em qualquer outro cargo público, como se probos fossem. E, assim, matam, uma vez mais, o sonho, o desejo de se ver este país dar certo. Tornar-se sério, enfim.

Não. Não há que se enganar. Apesar de todos os pesares – E Santa Maria ofertou centenas de motivos para eles. – ali, na boate Kiss, o que aconteceu não foi tragédia. Foi crime.

Também não é tragédia constatar que aqueles que deviam cuidar do bem estar dos cidadãos, porque eleitos foram – e bem pagos, para isso, são – continuam a brincar com a coisa pública. Irresponsáveis, imprevidentes, omissos. Descuidam da Saúde, da Educação, da Segurança e de tudo o mais que deva estar sob seus relapsos cuidados. Fazem promessas, recebem votos e rápido esquecem-se desses e daquelas. Traem a todos. Arrecadam impostos, mas os desviam. Não surpreende, portanto, que as verbas jamais sejam suficientes. Então, conclamam a sociedade a exercer a cidadania. Deste modo, se a pracinha do bairro está descuidada, os moradores que criem uma associação e a recuperem. Se há animais abandonados nas ruas, fundem uma ONG. Se a escola precisa de reparos, os pais que compareçam. Que limpem, lixem, pintem. Arrumem o telhado. Se o hospital não tem esparadrapo, reúnam-se as voluntárias, organizem chás beneficentes e coletem donativos. Se a estrada está intransitável, entrega-se à iniciativa privada e esta que tape os buracos, cobre pedágio. E vai por aí.

Quando ocorrem catástrofes, outra vez a sociedade é convocada a amenizar as necessidades e traumas dos desvalidos. Enquanto os cidadãos se mobilizam, organizam, tapam os buracos que o poder público não consegue preencher, os governantes exercem seus cargos com absoluta imprevidência. Muitas e muitas vezes, com improbidade. Nos momentos críticos, aparecem, fazem discurso. O mesmo de sempre. Assumem semblantes consternados e compromissos. Prometem providências, declaram-se indignados. Chegam até a chorar junto com os atingidos pelas “tragédias”, como se isso fosse resolver alguma coisa. E pouco agem. Quando o fazem, quase sempre, é para consertar o mal feito. Minimizar o desastre. Representam, não uma tragédia, mas uma farsa. Desligadas as câmeras, esgotadas todas as pautas da imprensa, a vida retorna à normalidade. Segue em frente. Afinal, não é assim que deve ser?

Então, o que se vê é esse eterno carnaval. Essa ciranda horrorosa. Esse fandango macabro. Essa balada ensandecida em que se atordoam e se perdem todos os valores, inclusive os mais preciosos. A Vida, o Futuro, a Esperança.

Por isso, convém que não se esqueça dos rapazes e moças de Santa Maria. Rezemos por eles. Mais. Rezemos para eles. Para que perdoem tanta incompetência, irresponsabilidade e imprudência. Sobretudo, a imprudência. Nossos governantes já não são jovens. Deviam estar cansados de saber que não se brinca com o fogo. Que prevenir é o melhor remédio. Que não se deve dar chance ao azar. Que…

Rezemos aos moços e moças sacrificados no holocausto de Santa Maria. Peçamos a eles que roguem por nós, que ainda vagamos neste vale de lágrimas, mais feio e bem maior, agora, que eles já não estão mais aqui. Rezemos para que, de lá, do assento etéreo, ao lado da Mãe de Deus, que é onde eles devem estar, olhem por nós e tenham piedade. Muita piedade de nossas autoridades, coitadas, pois elas não sabem o que fazem. Envelheceram todas. Pior. Apagaram a chama de seus ideais juvenis. Já nem se lembram mais que, um dia, sonharam mudar o mundo. Não precisa tanto. Basta que não se acomodem nos assentos, que assumiram, e mudem, de fato, o próprio país. Basta que façam. E façam direito. Urgentemente. Não esperem acontecer.

 

Paulo Roberto Costa Leite Garcia, presidente da Sociedade Catarinense de Medicina Veterinária (Somevesc)

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