9 de agosto de 2010

30 anos de formatura, por Dorvalino F Filho

Detestava estudar e ler desde o primário. Meu pai, rígido e implacável na arte da educação, estimulava que eu estudasse e lesse muito, às vezes por  palmadas, que naquela época era surra de tala ou de cinta, o que hoje, quando lembro, fico orgulhoso, pois a cinta era de couro puro.

Minha Mãe, estrategista do coração, nunca me surrou apenas beliscava e forte. Meus irmãos e irmãs sempre protegiam e compensavam seu “nenê” (hoje tenho 57 anos), com carinhos e com a doação incomensurável de toda a vontade deles. Mesmo algum tempo sem vê-los, ( se espalham por este país),  ainda não consigo apagar do meu coração as melhores lembranças, que ainda permanecem indeléveis.

Fui um estudante, sem vontade de permanecer sentado no banco da escola, preferia “brigar” no pátio e com qualquer um “que me olhasse torto”. Às vezes penso que fui, humildemente, o “precursor ou fundador” em Curitiba do hoje famoso e nojento “Bullying”, mas sempre em defesa dos amigos, podem crer. Meu pai sonhava ter um filho médico.

Fiz incontáveis vestibulares de Medicina que naquele tempo era realmente humana. Nunca fui aprovado em nenhum, mas aproveitava esta aura ou oportunidade e mentia, nos bailes, para as paqueras que “tirava” para dançar, que eu era “estudante do segundo ano Medicina” e que meu nome era “Paulo Henrique”, pois achava que combinava como médico, mais que Dorvalino. Nos anos 60 e 70, esta farsa era “status social” em Curitiba.

Fui defensor de meus sobrinhos que viveram comigo intensamente esta época , nos bailes ou festas avulsas, também em Curitiba. Defendia-os contra os valentões nos bailes ou festas privadas, (eu brigava muito e apanhava pouco, tudo por eles e mais alguns amigos que não vejo há anos, usando e muito bem o meu karatê), além disto, patrocinava as despesas das festas deles e de outros e outras. Um verdadeiro “coronel pagador”.

Mas estes apaniguados e “devedores” sobrinhos cansaram de curtir, no bom sentido é claro, as “surras” que eu levava de meu pai para que estudasse. Mas não estudava e escondido continuava a ser o mesmo. Este meu esconderijo, era um cativeiro de “estudos forçados”, tipo um quarto no sótão de minha casa em Curitiba. Ali eu conseguia desfrutar a vida como seqüestrado da vida com privilégios.

Com horário de visitas pré-estabelecido pelos “carcereiros bem intencionados”, fui muito visitado por estes sobrinhos, poucos, muito poucos amigos, pois sequer tinham a coragem de ultrapassar o “campo minado” que meu pai fez por lá, para que o caçula dele só estudasse.

Certa vez, entre 16 e 18 anos, consegui minha liberdade e resolvi trabalhar para “ajudar” meu pai. Engraxava sapatos de meus irmãos, vendia ‘Q-Suco’ em posto de gasolina de Curitiba e ainda fui jornaleiro na rodoviária velha das 04 da manhã ao meio dia, todo o santo dia. Trabalhando duro pelo menos não estudava. Meu Pai e a tala de couro  na parede da minha casa continuavam atentos para  a minha educação.

Afinal precisava de dinheiro para as festas escondidas e também para sustentar os meus queridos “predadores”. Neste cativeiro de “estudos”,  ainda tinha o prazer de receber a minha mãe que levava uma ótima e providencial coalhada e outras comidas saborosas e engordantes. Renovava meu ânimo.

Mas não conseguia passar nos vestibulares, assim, estudando pouco, continuava a fugir para as festas colecionando ressacas. Lembro que com 18 anos, cheguei as 4 da manhã, pé por pé em direção a este cativeiro. Lá meu pai me esperava. Apanhei com a “tala maldita” até pedir perdão, pois minha mãe exigia esta humildade para atingir o coração do meu velho. Mas continuei fugindo.

Em 1975, em Lages, finalmente consegui satisfazer meus pais, fui aprovado no vestibular de Medicina Veterinária para ser um Médico de almas e não de humanos como eles queriam.

Foram cinco longos e adoráveis, (hoje eu penso assim…) anos de Medicina Veterinária em que aprendi com meus colegas de turma, professores, e principalmente esposa,  a gostar de estudar, escrever e a ler muito. Um milagre, tenho certeza.

Neste tempo pós-faculdade, conclui quatro Pós-Graduações, três “latu-sensu”, (Universidade Federal e UDESC de Santa Catarina e uma no Japão como aperfeiçoamento profissional). Imaginem só, o nêne do Pai e da Mãe, xodó dos irmãos e irmãs,  chegou a ser Presidente do Conselho de Médicos Veterinários de SC, e também Conselheiro, por quatro anos, no Conselho Federal de Medicina Veterinária em Brasília.

“Plantei árvores” e também publiquei quatro livros, além de muitos artigos e crônicas publicadas na imprensa catarinense e nacional. Estudei numa das cinco melhores (até hoje), faculdades de Medicina Veterinária do Brasil, hoje o Centro de Ciências Agroveterinárias Udesc, hoje uma construção de sabedoria sobre saúde da terra e dos animais. Na faculdade convivi com trinta e uma pessoas que se tornaram meus irmãos de ideais.

Depois de 30 anos, numa justa comemoração neste julho de 2010, em Lages, vi que eles envelheceram um pouco por fora e nada por dentro. Todos estavam felizes e radiantes com suas famílias neste encontro. Mas que maravilha, eu e minha esposa pudemos desfrutar e recordar com nossos corações, as bênçãos destes 30 anos de ausência destes Médicos Veterinários de almas.

Comprovei, também, que meus Colegas, hoje amigos, de Faculdade, construíram um caráter profissional e pessoal digno de todos os louvores neste Brasil. Lá na minha alma eu chorei de alegria e de muito orgulho por estes 31 rapazes que hoje dignificam a Medicina Veterinária.

Faltou o Munhoz porque Deus o levou como Médico Veterinário, para seu Reino, e assim, exclusivamente, ser o clínico dos animais que Ele tem ao Seu Lado. Energizado por todos, daqui a cinco anos eu vou organizar em Florianópolis, com absolutamente todos Vivos, nossos 35 anos de formatura.

Dorvalino Furtado Filho, médico veterinário

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