24 de agosto de 2017

Leishmaniose Visceral Médicos Veterinários informados e atentos

ALERTA

A confirmação do primeiro caso humano autóctone de leishmaniose visceral em Santa Catarina deve ser encarada com preocupação e atenção, pois há o risco de surgimento de novos casos na população, tendo em vista que a endemia canina acontece em Florianópolis desde 2010, onde já há mais de 30 localidades com registro de aproximadamente 300 cães infectados por Leishmania chagasi.

Nesse contexto, os médicos veterinários têm papel essencial, tanto na prevenção quanto no controle dessa doença, cabendo ao profissional orientar aos proprietários dos cães e à população em geral sobre os principais aspectos da leishmaniose visceral, as formas de prevenção e os riscos envolvidos no tratamento dos cães. A notificação de casos caninos suspeitos com leishmaniose visceral é obrigação do médico veterinário como profissional de saúde pública, conforme preconizado na Instrução Normativa nº 50/2013 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que lista as doenças de notificação compulsória.

 

A ZOONOSE

A Leishmaniose Visceral é uma doença infecciosa não contagiosa causada nas Américas por protozoários da espécie Leishmania (Leishmania) chagasi, de caráter crônico e sistêmico, que acomete mamíferos domésticos e silvestres. Essa zoonose está entre as 6 mais relevantes enfermidades infecto-parasitárias do mundo, sendo a 2ª protozoose mais importante da atualidade, perdendo apenas para a malária. Apesar disso, a leishmaniose visceral é considerada uma doença negligenciada, despertando pouca atenção do poder público e da iniciativa privada, o que reflete em políticas públicas pouco eficientes e na inexistência de vacinas e novos medicamentos.

Em humanos a sintomatologia clínica caracteriza-se por febre de longa duração, perda de peso, astenia, adinamia, anemia, hepatoesplenomegalia, dentre outras manifestações. Quando não tratada, pode evoluir para óbito em mais de 90% dos casos.

A suspeita clínica de leishmaniose visceral em cães ocorre quando o animal apresenta um quadro sintomático de febre irregular, apatia, alterações cutâneas (alopecia, eczema furfuráceo, úlceras e hiperqueratose), onicogrifose (crescimento exagerado das unhas), emagrecimento acentuado, ceratoconjuntivite e paresia de membros posteriores. Entretanto os médicos veterinários devem ficar atentos, pois cerca de 60% dos cães com leishmaniose visceral canina são assintomáticos.

A forma de transmissão da leishmaniose visceral é vetorial, por meio da picada do flebótomo contaminado, popularmente conhecido como “mosquito palha” que, ao picar cães ou outros animais infectados, se torna portado do protozoário e pode transmiti-lo a cães sadios ou às pessoas. As principais espécies de flebotomíneos incriminadas na transmissão da LV são Lutzomyia longipalpis e Lutzomyia cruzi, no entanto outras espécies de flebótomos, de característica silvestre, tem participado do ciclo de transmissão da LV, especialmente em Florianópolis.

Estes insetos são pequenos, com tamanho inferior a 1mm, apresentam coloração amarelada ou palha e, em posição de repouso, suas asas permanecem eretas e semiabertas. O ciclo biológico do vetor ocorre no ambiente terrestre e passa por 4 fases: ovo, larva, pupa e adulto (forma alada). Desenvolvem-se em locais úmidos, sombreados e ricos em matéria orgânica. O desenvolvimento do ovo à fase adulta ocorre em cerca de 30 dias.

As formas adultas abrigam-se nos mesmos locais dos criadouros e em anexos peridomiciliares, principalmente em abrigos de animais domésticos. Somente as fêmeas se alimentam de sangue, pois necessitam de sangue para o desenvolvimento dos ovos e sugam uma ampla variedade de animais vertebrados. A alimentação é predominantemente noturna. Tanto o macho quanto a fêmea tendem a não se afastar muito de seus criadouros ou locais de abrigo podendo se deslocar até cerca de 1 quilômetro, com a expressiva maioria não indo além dos 250 metros. O tempo de vida da fêmea é estimado, em média, em 20 dias.

 

ORIENTAÇÃO

Os Médicos Veterinários que suspeitarem de leishmaniose visceral canina, deverão realizar a coleta de 5 ml de sangue, em tubete sem anticoagulante e procurar a Vigilância Epidemiológica de seu município, notificando e encaminhando a amostra. A análise desta amostra será realizada ao Laboratório Central – LACEN/SC, não tendo nenhum custo ao proprietário ou médico veterinário.

Medidas simples de manejo ambiental como limpeza dos terrenos e quintais, eliminação de resíduos orgânicos do solo, entrada da luz solar, redução da umidade do solo, afastamento dos abrigos dos animais domésticos das casas, podem ajudar a diminuir a quantidade destes insetos. A aplicação de inseticidas só está indicada em situações especiais, de acordo com a avaliação da Vigilância Epidemiológica. As pessoas podem se proteger das picadas usando repelentes e evitando permanecer nas áreas externas durante o entardecer ou período noturno.

No ciclo de transmissão da leishmaniose visceral, os cães assumem a condição de reservatórios doméstico, sendo fonte de infecção para o inseto transmissor. O uso de coleiras repelentes a base de piretróides e a vacinação contra  a LVC constituem medidas importantes na prevenção da zoonose.

 

TRATAMENTO

Recentemente foi aprovado no MAPA um medicamento à base de miltefosina para o tratamento de cães. No entanto, cabe frisar que não há cura parasitária, apenas cura clínica. Haverá a necessidade de acompanhamento veterinário o resto da vida do animal, pois o tratamento não impede que o cão seja fonte de infecção para flebótomos livres do protozoário. Desse modo, a possibilidade de eutanásia deve ser considerada e ainda é a recomendação do Ministério da Saúde. É importante reiterar que o uso de medicamentos humanos para tratamento canino de leishmaniose continua sendo proibido, consoante a Portaria Interministerial nº 1.426/2008.

 

NOTIFICAÇÃO

Ao suspeitar de um cão com leishmaniose visceral, em qualquer cidade do Estado o Médico Veterinário pode notificar oficialmente a Secretaria Estadual de Saúde/Diretoria de Vigilância Epidemiológica (DIVE-SC) via e-mail dvrh@saude.sc.gov.br, ou no caso de Florianópolis pode entrar em contato diretamente com o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) pelo e-mail zoonosespmf@gmail.com. Em Joinville, contactar a Vigilância Ambiental pelo e-mail notificazoonosesjlle@gmail.com

 

Comissão de Saúde Pública do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Santa Catarina

 

 

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